quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O nome da rosa

No curso de A.U. do Izabela Hendrix, na disciplina de História da Arquitetura, da Cidade e das Artes I, minha Professora, Sandra Lemos Coelho Bontempo, pediu que assistíssemos ao filme “O Nome da Rosa” para uma comparação com o texto “A Vida Doméstica Urbana Medieval”. Como eu assisti ao filme três vezes, dedico este post a ele.
Fonte: Google Imagens

Passado numa abadia italiana em 1327, O Nome da Rosa decorre durante ‘o cativeiro Babilônico’, um período de 70 anos durante o qual os papas eram franceses e a Santa Sé foi transferida de Roma para Avignon. Neste tempo de imenso rebuliço, as ordens monásticas competiam por influência temporal e espiritual. Os imperadores italiano, francês e alemão competiam pela dominação política e as relações muitas vezes hostis no seio do papado, ordens religiosas e vários imperadores faziam da vida monástica uma vida pouco tranqüila.  A Baixa Idade Média (século XI ao XV) é marcada pela desintegração do feudalismo e formação do capitalismo na Europa Ocidental. Ocorrem assim, nesse período, transformações na esfera econômica (crescimento do comércio monetário), social (projeção da burguesia e sua aliança com o rei), política (formação das monarquias nacionais representadas pelos reis absolutistas) e até religiosas, que culminarão com o cisma do ocidente, através do protestantismo iniciado por Martinho Lutero na Alemanha em 1517. Culturalmente, destaca-se o movimento renascentista que surgiu em Florença no século XIV e se propagou pela Itália e Europa, entre os séculos XV e XVI. O renascimento- enquanto movimento cultural- resgatou da Antigüidade greco-romana os valores antropocêntricos e racionais, que adaptados ao período, entraram em choque com o teocentrismo e dogmatismo medievais sustentados pela Igreja.
Fonte: Google Imagens
O Nome da Rosa, que tem como centro da história uma biblioteca, caracterizada como reservatório do saber e como pano de fundo um mosteiro, onde se passa a trama.  A expressão "O Nome da Rosa" foi usada na Idade Média significando o infinito poder das palavras. A rosa subsiste seu nome, apenas; mesmo que não esteja presente e nem sequer exista. A “rosa de então”, centro real desse romance é a antiga biblioteca de um convento beneditino, na qual estavam guardados, em grande número, códigos preciosos: parte importante da sabedoria grega e latina que os monges conservaram através dos séculos.  O autor mostra grande conhecimento da filosofia medieval, da política da Igreja e do ambiente que dominava as abadias dos beneditinos.  A história ocorre em sete dias, e cada dia é dividido nas partes que a Igreja usava para que seus clérigos rezassem: Matinas, Laudes, Primeira, Terceira, Sexta, Nona, Vésperas e Completas. Sete mortes misteriosas ocorrem durante aquela semana e todas elas ligadas à existência ou não de um livro de Aristóteles sobre a Comédia. Umberto Eco critica impiedosamente as questões que os teólogos trocavam entre si se Jesus Cristo sorriu alguma vez na sua vida, de alguma situação ou de alguém. O mosteiro representa a forma tradicional que a igreja se estabeleceu no ocidente cristão. Estes faziam parte de um mundo fechado, uma verdadeira fortaleza com muralhas e portões que preservavam a vida monástica dos perigos. Os principais mosteiros medievais possuíam grandes riquezas, terras, tesouros e servos.  Essa época foi bastante influenciada pelo filósofo Santo Agostinho (354 – 430).  Em seu tratado A Doutrina Cristã Santo Agostinho estabelece que “Os Cristãos podem e devem tomar da filosofia grega pagã tudo aquilo que for importante e útil para o desenvolvimento da doutrina crista, desde que, ao mesmo tempo, o que for tomado seja compatível com a fé”. Isto vai constituir o critério para a relação entre o cristianismo (teologia e doutrina cristã) e a filosofia e a ciência dos antigos. Por isso é que a biblioteca tem que ser secreta, porque ela inclui obras que não estão devidamente interpretadas no contexto do cristianismo medieval. O acesso à biblioteca era restrito, pois em seu interior existia um saber pagão que poderia ameaçar a doutrina cristã.  Como diz ao final Jorge de Burgos, o velho bibliotecário, acerca do texto de Aristóteles – a comédia pode fazer com que as pessoas percam o temor a Deus e, portanto, faz desmoronar todo esse mundo. Seguindo o pensamento de Santo Agostinho, os clérigos restringiam o acesso ao conhecimento, servindo como um entrave, uma negação para a Idade Moderna.  Porém os monges se dedicavam a traduzir e copiar livros, o que foi essencial na preservação e difusão na cultura clássica e nas obras religiosas. Durante a Idade Média umas das práticas mais comuns nas bibliotecas dos mosteiros eram apagar obras antigas escritas em pergaminhos e sobre elas escrever ou copiar novos textos. Eram os chamados palimpsestos, livretes em que textos científicos e filosóficos da Antigüidade clássica eram raspados das páginas e substituídos por orações rituais litúrgicos.
Fonte: Google Imagens
Se a abadia é o corpo deste enredo, a biblioteca funciona como o seu coração. Instalada numa torre de pose austera, acessível através de um intrincado labirinto de escadas e corredores, ela guarda o verdadeiro tesouro: o conhecimento. Das salas partiam caminhos enganadores, para além de, no local mais inacessível, alguém colocara o livro da Poética de Aristóteles, que supostamente tratava da comédia e do riso e que era considerado um atentado à fé. Na Antiguidade pagã, o saber sempre foi privilégio de alguns. No Egito foi igualmente assim, o mesmo acontecendo na Grécia e no Oriente, onde se cultivava a força e o poder. Sabe-se que o saber dá poder, logo era perfeitamente natural que aqueles que sabiam, procurassem esconder as suas descobertas, tentando assim controlar o poder.  Como se isso não fosse suficiente, o labirinto da biblioteca da Abadia tinha sido construído à imagem do mundo conhecido pelos medievais. Cada sala era designada por uma letra, e as letras de um conjunto de salas formavam o patronímico de um país ou de uma região. Por exemplo, as salas designadas com as letras A, N, G, L, I, reuniam os autores ingleses. Através de uma construção labiríntica, "a biblioteca defende-se por si, insondável como a verdade que acolhe enganosa, como a mentira que encerra. Labirinto espiritual é também labirinto terreno. Poderíeis entrar e poderíeis não sair." Ela é testemunha da verdade e do erro. Essa era uma idéia defendida pelos pensadores medievais. Historicamente, aquela biblioteca já existia antes mesmo da construção da própria Abadia, o que acaba por nos transmitir a idéia de que a Igreja Católica aproveitara-se do saber humano acumulado antes de sua fundação e expansão, e teria alterado os fins a que tal saber se destinavam. É este, certamente, o sentido das seguintes palavras de Adso: "(...) Não tinha a experiência dum mestre-pedreiro, mas apercebi-me que ele (o edifício da biblioteca) era muito mais antigo que as construções que o rodeavam, nascido talvez para outros fins, e que o conjunto abacial se dispusera à sua volta em tempos posteriores, mas de modo que a orientação da grande construção se adequasse à da Igreja, ou esta àquela".  A Igreja, na Idade Média, teria tido apenas a preocupação de conservar, de repetir e defender o que a humanidade tinha aprendido, não dando valor nem permitindo a investigação e o desenvolvimento intelectual. Esta Abadia foi imaginada pelo autor como um símbolo da época medieval e do próprio mundo, assim como da História, ele mesmo o diz: "Esta abadia é um verdadeiro microcosmo”. Por outro lado, todas as instituições e estados sociais da época estavam representadas na planta da Abadia. Em primeiro lugar, analisa-se o modo como é apresentada a igreja da abadia, pois esse edifício simboliza a própria Igreja Católica, na Idade Média. O autor distingue na construção do edifício religioso duas igrejas, feitas em dois diferentes estilos. A primeira, mais antiga, é de construção românica, sóbria, solidamente plantada no chão da montanha, mais larga do que alta, para ter mais estabilidade, e encimada por ameias quadradas.  Essa igreja antiga construída sobre a pedra, quase sem adornos, representa evidentemente a igreja primitiva que os sectários consideravam a verdadeira igreja de Cristo: igreja pobre, sem riquezas materiais, sem estruturas, uma pura igreja espiritual, que depois se corrompera ao ter aceitado a doação de Constantino, no século IV. Como se vê, Frei Guilherme defende na sua alusão: A ideia de que a Igreja deve ser pobre, espiritual, e não dogmática; Essa nova igreja subornada pelos donativos do Estado Romano, rica, cheia de enfeites, materializada nas suas estruturas, fossilizada nos seus dogmas, é simbolizada pelo segundo edifício, construído sobre a igreja românica. Na entrada da igreja da abadia, Adso e Frei Guilherme detém-se a contemplar o tímpano esculpido em estilo românico. Nele está representada a visão do trono de Deus de Ezequiel e o juízo final em que Cristo julgará os vivos e os mortos, levando os bons para o céu e condenando os maus ao fogo eterno. Nesse tímpano estavam representados ainda os sete pecados capitais, utilizando-se os mesmos números cheios de significados místicos que aparecem no Apocalipse, e procurando-se obedecer às leis da estética medieval que mandava harmonizar o uno e o múltiplo, o unívoco e o equívoco. Simbolicamente, o autor situa o cemitério da Abadia entre a igreja e a biblioteca. Entre a religião e o saber, estava a morte. Existiam dois caminhos que efetuavam a ligação entre a igreja e a biblioteca, entre a religião e o saber. O primeiro, que era visível, passava por entre os túmulos. O segundo, um caminho subterrâneo, secreto, passava por entre os mortos. O enigma da morte permitia entrar no labirinto, fornecia a chave de acesso, mas não a do seu segredo tão bem guardado. E os monges eram dominados pela biblioteca, pelas suas promessas (o céu) e por suas proibições (os mandamentos). Com base nesses argumentos é que podemos considerar que a Idade Média também foi uma “semente” para o nascimento da Idade Moderna. Podemos considerar a biblioteca como o núcleo do mosteiro. O saber como se pode observar no filme se mostra como algo que não é transparente, de acesso imediato, porém labiríntico, e em sua busca podemos nos perder com facilidade.
No personagem Guilherme de Baskerville podemos encontrar características de um empirista, um intelectual renascentista, que busca o conhecimento através das experiências, da observação e da visão cientista contra a especulação. Ele carrega consigo um par de óculos, que simbolizam essa necessidade de observar bem os fatos. À medida que ele vai tentando desvendar os assassinatos que ocorrem no mosteiro fica mais clara sua visão de buscar a verdade através de observações meticulosas e da recusa por explicações sem sentido. Todos no mosteiro tentam explicar os acontecimentos como sendo obra divina. O inquisidor Bernardo Gui é chamado para desvendar o mistério em torno das mortes, e imediatamente vê a presença do demônio e de bruxaria. Essa é uma forma de conhecimento que não vê a realidade, fruto de superstição e da fé cega na doutrina. Os motivos dos crimes é a defesa da tradição contra um novo saber.  No entanto, os crimes ocorridos não explicam o verdadeiro mistério da Abadia, mas são explicados por ele.
Fonte: Google Imagens
A Idade Média assistiu em sua agonia um grande debate filosófico-religioso. Perdido o equilíbrio o homem medieval caiu em dois extremos opostos. De um lado tínhamos a posição do catolicismo; de outro, a concepção imperial, laica e estadista. De um lado, a igreja, avessa a qualquer tipo de evidência racional e empírica, interessada na defesa dos dogmas da cristandade, condenando tudo aquilo que, de uma forma ou de outra pudesse contrariar as autoridades permitidas, nomeadamente, a lógica aristotélica e os fatos resultantes da observação e experimentação. Do outro, uma posição aberta à consideração da observação dos fatos independentemente da sua relação com os dogmas, partindo justamente dos fatos para a construção de hipóteses e sua posterior verificação empírica e conformidade racional, ou seja, a demonstração. Para além desta abordagem o filme apresenta inúmeros e valiosos elementos para a caracterização da sociedade e cultura da época. Destaque para o retrato das relações sociais entre as diferentes classes, o poderio da igreja e a manipulação, psicológica, econômica e política subjacente ao mesmo. O filme revela igualmente o importante fato da cultura, sabedoria e conhecimento serem um privilégio de apenas algumas pessoas, e por essa razão, poderem ser manipuladas em função de outros interesses que não a descoberta da verdade, e mais grave ainda, o fato da instituição Igreja, á imagem e semelhança do que foi feito pelos romanos quando conquistaram a Grécia, terem destruído uma grande parte da nossa herança cultural, pela simples razão de ser incômoda para a religião e fé católicas, e, sobretudo , para a manutenção dos seus privilégios e condição social, econômica e política.  

Fonte: ECO, Umberto, Por que "O Nome da Rosa”? e MOSCARIELLO, Angelo (s.d.) Como ver um filme

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