segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Definições incertas: arquitetura

E o fim do semestre se aproxima sem dó... E esse disse-que-me-disse merece uma reflexão sobre "o que vamos ser quando crescer". Para introduzir, um videozinho sobre a profissão e a seguir, um texto do arquiteto Wellington Cançado, coorganizador do livro Espaços Colaterais.

video

"Para o consenso, a arquitetura é o invólucro que nos protege das intempéries naturais e nos abriga. É o clichê romântico da cabana rústica e até da caverna primitiva, imagem de uma convivência harmônica e limpa com a natureza (sem lixo, esgoto e outros males da civilização), hoje atualizada nas versões mais “modernas” dos loteamentos suburbanos, nos refúgios rurais e resorts litorâneos.

Para o filósofo, a arquitetura se manifesta quando percebemos os limites e as barreiras materiais que nos são impostos, e que nos imputamos voluntariamente também: grades, muros, fincos, fossos, cercas, paredes, degraus etc. Tudo aquilo que ao invés de permitir, impede. Talvez o exemplo mais radical desse estado crítico e puro da arquitetura sejam os presídios e seus espaços e dispositivos de controle. O que não quer dizer que essa estratégia de imobilização não esteja por toda parte.

Para os presos, arquitetura é punição. Mesmo que seja cada vez menos imobilização. É que na era do celular, as barreiras físicas não mais impedem as ações coordenadas e o contato com o exterior. E é por isso que a arquitetura tem que ser cada vez mais cruel, para castigar e oprimir, já que não há mais isolamento. É uma crueldade paradoxalmente sofisticada, toda em concreto aparente, paredes duplas e espaços amplos. Mas tudo bem, o filósofo ainda pode ser citado, só é preciso refletir sobre o que a Europa de décadas atrás pode ensinar a São Paulo desses tempos.

Para o artista, aquele mais antenado com as “questões da arte contemporânea”, a arquitetura é um objetivo a ser atingido e uma novidade (não tão nova) a ser encarada. Difícil encontrar um artista que não esteja “profundamente interessado na arquitetura”, não como objeto de estudo, mas pelo seu caráter construtivo e como “campo expandido” (hoje entendido literalmente como vacas espalhadas pela cidade?!). O que a maioria parece não entender, e isso é bastante fácil de observar nas persistentes “instalações” que pululam por toda parte, é que não há arquitetura sem a rotina dos habitantes reais. Será que o mundo anda tão fictício que até a arte precisa se aproximar do real?

Para o professor, imbuído de sua tarefa de formar arquitetos sensíveis, a arquitetura é um campo aberto de possibilidades de experimentações corpóreas e sinestésicas que devem ser sentidas e potencializadas no espaço por cada mínimo detalhe, cada material, cada escolha do aluno. A genealogia dessa ideia, apesar de difícil de rastrear, provavelmente está vinculada à nossa própria formação como consumidores contemporâneos. Afinal, o que somos nós senão colecionadores habituais de novas experiências? Não são o gazebo gourmet, o Bar Acapulco, a piscina hot tub com cascata, o putting green e vários outros espaços que acumulamos em nossos condomínios nada mais do que demandas espaciais para emancipação de nossas fantasias?

Para os corretores de imóveis, arquitetura é oportunidade. “Sollar Emp Imov Casa nas Alamedas pto nobre constr orig terreno 1072 m2 450 m2 de área útil constr 4sls escrit lavabo 4semi-suítes suíte-master closet hidro sala íntima dce sl festa pisc quadra churrasq jardim gar p/8carr toda reformada piso granito pedras S.Tomé tábua corrida portas janelas madeira maciça teto acompanhando beiral externo em lambri R$320Mil acta 50% em imóvel e facilita pagtos Venha conferir! Não perca tempo! 3491-1552 c13976”.

Para os engenheiros e os pragmáticos de plantão, arquitetura é uma palavra que causa arrepios. Sinônimo de frescura, desperdício, complicação, subjetividade, supérfluo e outros palavrões aos ouvidos da racionalidade técnica, arquitetura é a fina casca efêmera que enfeita a audácia da concretude infraestrutural. Mas eles não estão totalmente corretos como imaginam e nem totalmente enganados como gostariam os arquitetos que se irritaram com as linhas acima. Há muito a arquitetura se orgulha de ser o “frufru” da madame, o acessório de gesso que eclipsa a luz e o quadro (daquele artista não antenado) combinando com o sofá branco.

Para os geógrafos, arquitetura é objeto técnico. Não em sua concretude como para os engenheiros, nem como objeto de troca como para os corretores, mas um pouco dos dois. Elemento de uma paisagem maior, como “vestígio das ações” humanas, mas também de uma (des)territorialidade conformada pelos fluxos de valor. Talvez os geógrafos desprezem a arquitetura pela sua pequenez e pelo seu excesso de subjetividade (é, eles também tem problemas com isso!). Talvez por trabalharem cientificamente com escalas tão enormes, não tenham tempo para as miudezas intuitivas. Seria inadiável se não fossem as insistentes categorias disciplinares, um encontro entre a arquitetura e a geografia em uma espécie de “pororoca epistemológica”.

Para os economistas, investidores e players globais, arquitetura é um sistema intrincado e dinâmico que rege o funcionamento do capitalismo contemporâneo. A chamada “arquitetura financeira internacional”, apesar do nome pomposo e do otimismo ingênuo com a própria capacidade da arquitetura, pode ser para uns o esquema perverso de manutenção da ordem entre pobres e ricos e, para outros, um lucrativo modo de se fazer dinheiro, principalmente graças à internet. Mas de alguma forma, o preço da couve do almoço de ontem, do ônibus de hoje e a prestação da casa própria de amanhã, dependem dessa arquitetura abstrata e imaterial.

Para os políticos, arquitetura é cosmética eleitoreiraVeneciano, Avenida Marrom-Sanitário. É preciso concordar que tem dado certo. Pelo menos para eles. E o curioso é que são arquiteturas de publicitários, estratégias de “Marketing Territorial”, a mais nova tendência trazida pelas monções globais. Os arquitetos, recebem 0,0001% do valor cobrado pela agência TAL, assinam a marmota e ainda se sentem orgulhosos o suficiente para publicar o trabalho em veículos especializados. Mas a pior parte fica definitivamente para os vizinhos da “benfeitoria”.

Para os leigos (termo pejorativo que os arquitetos usam para desclassificar clientes), arquitetura é algo muito parecido com a engenharia, senão uma subcategoria indefinida desta, razão pelo qual a grande maioria não vê vantagem alguma em sair procurando um escritório de arquitetura se há lojas de engenharia em todos os shoppings, com estacionamento fácil. A diferença é que “arquitetos são sonhadores, idealistas e gostariam de mudar o mundo”. De preferência começando pela pintura das fachadas.

Para os biólogos e ambientalistas, arquitetura é sinal de destruição e devastação. A bem da verdade, a construção civil é mesmo a atividade mais predatória existente sobre o planeta. O que essa verdade não revela é a efetiva participação dos arquitetos nesse processo. Tanto que, cansados de estarem alijados dos lucros da “compulsão construtiva”, estes têm cada vez mais mudado de lado para atuarem como planejadores ambientais, ecodesigners e paisagistas. Talvez esse fenômeno seja sintoma de uma crise maior, de um esgotamento de um modelo de desenvolvimento; talvez seja apenas o desbravamento de mais um nicho: de mercado.

Para historiadores e demais afeiçoados por aquelas fotos sépia dos livros comemorativos, arquitetura é um monumento sólido e estável (hipotética e historicamente). Uma espécie de ruína asséptica de um futuro anacrônico, habitada por moradores no presente. Como pode ser possível isso? A grande batalha travada por voluntariosos preservadores e preservados involuntários se dá exatamente na impossibilidade linguística da noção de patrimônio: para os primeiros, valor coletivo e interesse público inalienável; para os segundos, propriedade privada e aguardada herança a ser repartida logo que findado o inventário da casinha da Vovó.

Para os carros, arquitetura é brutalista. Ou sua nova versão criada não mais pela ideologia da “honestidade dos materiais”, do “trabalho livre” e nem pelos estilismos regionais, mas simplesmente como contenção de gastos. As garagens atuais são a prova cabal que as melhores arquiteturas são produzidas quando não se pretendia fazer arquitetura! Além disso, são os ambientes perfeitos para entender o que significa “interface” (atenção professor!): design gráfico, publicidade, sinalização, engenharia elétrica, hidráulica, impermeabilização, ar-condicionado, sistemas de comunicação e vigilância, sistemas estruturais. Tudo ali, integrado e à mostra, sem pudores.

Para os decoradores, arquitetura é o que se deve ocultar. Portanto, exatamente o oposto de uma garagem contemporânea. Quantas caixas-de-passagem, quantas juntas-de-dilatação, quanta tubulação, quantos fios, quantos motores, quantas placas, quantos hidrômetros devem ser escondidos com toneladas de gesso e MDF?

Para os sociólogos, arquitetura é um instrumento a serviço da exclusão, da segregação e da “luta de classes”. A casa-grande e a senzala, a fábrica e a cidade, o morro e o asfalto são momentos materializados do comportamento das massas humanas no cenário delineado pelas metrópoles (ou simplesmente a leitura que algumas cabeças fizeram desse comportamento?). Arquitetos costumam gostar de comprar livros de sociologia. Será que estes preenchem os espaços vazios das fotografias fantasmagóricas dos livros e revistas de arquitetura? Será que sociólogos escrevem sobre arquitetura coisas que arquitetos não são capazes de escrever? Ou será apenas pelos títulos sugestivos? (alguns ótimos: “Ecologia do medo”, “Modernidade líquida”, “Produzir para viver”, “Cabeça de Porco”).

Para os terroristas e, recentemente, para o PCC, arquitetura é alvo. Sinal que terroristas e bandidos, além de comprar livros de sociologia, os lêem.

Para as crianças, arquitetura é grande e colorida. A verdade é que as crianças é que são pequenas. Quando crescem percebem que arquitetura tem sempre as mesmas dimensões: pé-direito de 2,80 metros, bancada a 90 centímetros do chão, etc. Percebem também que com o passar dos anos, o mundo ao seu redor vai se tornando cada vez mais monocromático. Não é o mundo, claro, mas os ambientes que passam a frequentar. Depois do maternal colorido, da puberdade em salas de duas cores (branco e bege, branco e cinza ou branco e verde-água) com mobiliário da cor da roupa dos professores; da adolescência em salas de uma cor esmaecida qualquer, chega a hora da universidade. Tudo igual: tão monótono que a orelha do colega à frente continua sendo mais incisiva do que a aula no PowerPoint.

Para os técnicos empuleirados nos gabinetes oficiais (que o geógrafo-mór chamou de “subalternos”), arquitetura é um emaranhado de parâmetros. Coeficientes, taxas, números, fórmulas, zonas, termos vagos e disfarçadamente precisos para estabelecer quem são os leigos (lembra?) e os especialistas. Mas afinal, não somos todos especialistas em habitar? Se todo esse esforço de abnegados servidores em prol do bem-estar coletivo deveria propiciar uma cidade mais organizada, ensolarada e aerada, a prática revela outra realidade: limitada, melancólica, barulhenta e horrorosa. Será que não seria melhor confiar no bom-senso e nas preferências individuais, ao invés de delegar essa função a alguns poucos mau-humorados?

Para os bichos, a arquitetura pode ser um habitat melhor que a própria natureza. Só para os que sobreviveram, é claro. Duas categorias básicas (criadas por um sábio-sobrinho de 2 anos) englobam toda a diversidade faunística atual: “selvagens e domésticos”. Os selvagens são os pombos, os pardais, as baratas, os ratos, os calangos, os urubus, as moscas, os piolhos, e os vira-latas (que podem ser cães, gatos ou cavalos). São os animais “cor-de-burro-fugido”. Os domésticos se resumem basicamente a uma elite privilegiada: os poodles, os angorás e o canário-belga, todos coloridos (às vezes, artificialmente). Selvagens adoram se infiltrar nos interiores domésticos. Baratas preferem as frestas dos armários da cozinha e pombos encaixam perfeitamente no brise-soleil. Gatos gostam mesmo é de surfar nos telhados remanescentes. Domésticos, quando saem sem escolta, tendem a se dar mal.

Para os mendigos e catadores, arquitetura é sobra. Assim como a comida, a roupa, os objetos que carregam. Coisas largadas, abandonadas e esquecidas por aí. Uma marquise, um degrau, um platô, um nicho. Pequenos esquecimentos do projeto inicial, cavidades ou apêndices que recuam ou avançam para fora do previsto. Nessas situações, a urgência da proteção é tão massacrante que uma mísera lajinha a 5 metros de altura pode ser um abrigo familiar. Assimra pode ser um abrigo familiar. Assim como o frio é psicológico, arquitetura também deve ser.

Para o porteiro, arquitetura é capsular. Como pode caber tanta coisa dentro daquela guarita? Televisão, cadernetas, pranchetinhas de controle, mochila, jornais, revistas, correspondências, rádio, luminária, interfone que parece uma mesa de som, sem contar a mesa e a cadeira. Isso quando o síndico não deixou a sacola com o edredom para a lavanderia pegar, o outro o micro system da tia e o do 4° andar, que está de viagem, a gaiola com o canário-belga. Mas parece que os porteiros não só não se importam (também de que adiantaria se importar?) como agradam bastante do espaço que lhes cabe na hierarquia condominial. É que apesar da economia no dimensionamento das guaritas, a posição é extremamente privilegiada: quem entrou, quem saiu, com quem entrou, com quem saiu... Pequenas distrações de uma rotina atribulada.

Para o síndico, arquitetura é profissão. Afinal, ninguém se preocupa tanto com arquitetura quanto estes obstinados e incompreendidos seres. Verdade que é bem fácil se dedicar à arquitetura com o dinheiro alheio (vide arquitetos). O portão que precisa de pintura nova, o interfone que está obsoleto e pode ser trocado “sem custos adicionais”, as instalações em estado preocupante que exigem a intervenção do martelete, a fachada que descasca e compromete nossa imagem, os móveis coloridos do hall que estão démodé. A eterna e diária batalha de convencimento de que vale a pena lembrar-se da arquitetura, e fazer algo por ela sem mexer no fundo de reserva, principalmente se você for um feliz proprietário.

Para o entregador de pizza, arquitetura é promenade. O balcão, o salão esfumaçado, barulhento e cheio de gente, a escadaria, o passeio esburacado, a banca que esconde o trânsito e o poste que escora a moto, o cadeado que sempre enguiça. 8 minutos: primeira à direita, segunda à esquerda, quinta à direita de novo. Uma contramão inofensiva, o prédio. Vaga debaixo da árvore e em frente à portaria, o passeio escorregadio (“cuidado!”), o interfone escondido sob a trepadeira, o portão aberto que apita em 3 segundos, o hall com pinturas estranhas e a lâmpada sempre queimada, o elevador que fecha sem avisar, a fórmica bege riscada, o térreo faltando o “t”. 53 segundos até lá em cima. O corredor longo e escuro (“cadê o interruptor?”), o mesmo cretino esperando já com a porta aberta, a luz acesa e o dinheiro na mão (“me convida pra entrar?”).

Para as plantas, arquitetura é fundo. Houve um tempo em que o fundo da arquitetura era o quintal (naquelas fotos sépia), mas hoje os quintais estão extintos e foram substituídos pelas fantásticas garagens. Também quem teria tempo de ficar varrendo terreiro e catando pitangas? É por isso que os corretores de imóveis e construtores inventaram as jardineiras, muito mais práticas e ecológicas pois gastam muito menos terra e água. Essas covas-rasas adequadas para espécies sem raiz, sem cheiro e sem cor, dimensionadas milimetricamente segundo o custo da impermeabilização, são ideais para embelezar e harmonizar o lar, principalmente quando o blecaute, a persiana e a cortina estão simultaneamente abertos.

Para o Houaiss, arquitetura é substantivo feminino. “Arte e técnica de organizar espaços e criar ambientes para abrigar os diversos tipos de atividades humanas, visando também à determinada intenção plástica. Conjunto das obras arquitetônicas executadas em determinado contexto histórico, social ou geográfico. Maneira pela qual são dispostas as partes ou elementos de um edifício ou de uma cidade. Conjunto de princípios, normas, materiais e técnicas usadas para criar o espaço arquitetônico. Derivação, por extensão de sentido: conjunto de princípios e regras que são base de uma instituição, conjunto de elementos que perfazem um todo; estrutura, natureza, organização. Derivação, sentido figurado: boa forma arquitetural, elaboração de um empreendimento futuro; plano, projeto”.

Para o cantor, compositor, escritor e filho do historiador, arquitetura foi uma escolha errada.

Para os turistas, arquitetura é o que está no início e no fim dos traslados: atrações e hotéis. Atrações são construções históricas, igrejas, fortes, faróis, monumentos, centros culturais e museus. São basicamente aqueles espaços que os moradores locais nunca entraram e não têm costume de frequentar, mas adoram ficar de fora rindo dos trajes e da brancura dos visitantes. Os hotéis são aqueles prédios cada vez mais parecidos com os condomínios habitados pelos visitantes (ou será o contrário?). “EM QUALQUER LUGAR, SINTA-SE EM CASA”. Hotéis podem ser “de luxo, para casais, agradáveis, golfe, resorts, hotéis com spa, hotéis-fazenda, aceitam animais, com canil e para crianças”. As atrações são classificadas por estrelas: quatro estrelas, não deixe de ir; três estrelas, muito interessante; duas estrelas, interessante; uma estrela, de algum interesse. Os hotéis são classificados pelo conforto: luxo, muito confortável, confortável, médio conforto, simples. Aquelas atrações sem nenhum interesse e os hotéis desconfortáveis não são recomendados.

Para os críticos (extintos nos trópicos), arquitetura é “ismo”. Neoclassissismo, cubismo, neoplasticismo, racionalismo, funcionalismo, modernismo, pós-modernismo, deconstrutivismo, regionalismo, minimalismo, pragmatismo, neomodernismo, hipermodernismo, imobilismo. Qual será o próximo?

Para o suicida, arquitetura é trampolim para o ímpeto. 11 pavimentos de queda livre. Uma eternidade. E segundo os reincidentes, um filme acelerado e de trás pra frente sobre toda uma vida, mas também uma experiência de libertação (tectônica?). Infelizmente, acontece de dar errado, graças à piscina do prédio vizinho, o toldo da mercearia ou o pula-pula inflado no pilotis. E ao invés do encontro com os que tiveram melhor sorte, o intrépido voador tem que se contentar com o corpo inchado, a multidão de curiosos e as piadinhas do porteiro.

Para o grande líder genocida, arquitetura é simétrica. Para cada grande museu saqueado, cada monumento bombardeado, cada torre conquistada em território inimigo, um equivalente wagneriano deve ser erigido em solo próprio, de preferência mais monumental.

Para o pastor, arquitetura já foi pior. É que as garagens, os galpões e as lojas improvisadas eram mesmo muito desconfortáveis. Quentes, sem acústica e apertados, esses espaços exigiam grande empenho do orador e seus súditosastor, arquitetura já foi pior. É que as garagens, os galpões e as lojas improvisadas eram mesmo muito desconfortáveis. Quentes, sem acústica e apertados, esses espaços exigiam grande empenho do orador e seus súditos sudoríparos. Entretanto, muitos paradigmas foram quebrados graças a essa precariedade: telão, lâmpadas florescentes, cadeiras de plástico, grunhidos eletrificados, data show e PowerPoint. Uma espécie potente de realismo transcendental. Mas, infelizmente, à medida que o dízimo aumenta, essa fase de transgressão criativa diminui, e os novos templos são cada vez mais de espessura histórica pré-fabricada e do reino do Bigness.

Para o padre, arquitetura já foi melhor. Será que queda do número de fiéis é resultado das igrejas cada vez menos impressionantes? Galpão por galpão, melhor o que tem telão?

Para o parto, arquitetura é clínica. Inoxidável, fria, lisa, impermeável e monocromática! Ou seja, antes do maternal colorido, passamos por uma recepção inteiramente esmaltada em verde-água. Em contrapartida, permanecemos algumas horas naquela redoma linda, acrílica, transparente, repleta de oxigênio do mais puro. Nossa primeira casa, e indiscutivelmente a melhor de todas as que virão. Nesses laboratórios pálidos de recém-vida, com janelas escassas, poltronas plastificadas e catracas barulhentas, nascer é ainda um experimento?! Não deveríamos nascer em um jardim ensolarado, calmo e acolhedor? Ou é assim que devemos morrer?

Para a morte, arquitetura é mística. Formas arquetípicas, pirâmides, cúpulas, grandes eixos e perspectivas. Tudo isso disposto como numa maquete perfeita, sobre o tal jardim ensolarado, calmo e acolhedor, com uma pitada de feng-shui, algumas mandalas, cruzes estilizadas, clichês de novela, a indefectível trilha sonora new age e muita favela ao redor.

Para os jornalistas, arquitetura não é notícia. A não ser quando desabam 04 torres de 30 andares ao mesmo tempo, quando a obra do tribunal é superfaturada, quando o arqui-diretor do museu não paga a conta de luz, quando são convidados para a inauguração da loja mais luxuosa do país, quando se deslumbram com os estádios d’amaiordetodasascopas, quando há rebelião em 57 presídios ao mesmo tempo. Entretanto, com muito custo (R$87,52/cm2) a arquitetura conquista gradativamente um lugar de destaque nos principais jornais. Melhor para os donos dos jornais, que costumam ser também os editores, pois assim podem distribuir a pauta em duas categorias básicas: notícias e anúncios. Arquitetura felizmente se enquadra na segunda.

Para os programadores de software, arquitetura é a estrutura sofisticada e complexa que permite que comandos simples executem ações ou programas extensos e complicados. Para eles, quanto mais eficientes, mais criativas e mais simples forem as “plataformas operacionais”, mais rica será a interação do usuário com o computador. Afinal, é disso que se trata? Mediação eficiente e criativa entre nós mesmos e as coisas enigmáticas que construímos? Ou será somente uma grande metáfora? Windows, Desktop, Firewall, Vista...

E para os arquitetos, o que será arquitetura?"

Então, o que é arquitetura? E como diz  Paulo Bruscky, para quê serve? Arquitetura é só uma interface entre o homem e o mundo? Então, canis não são arquitetura? Arquitetura pode ser vestível? Pode ser abstrata e até mesmo etérea? Precisa proteger da chuva? Um pavilhão de cds seria "música petrificada"? 
Não vou dar as respostas que eu mesma não tenho. Nem vou me aventurar a uma designação simplista de uma estudante do primeiro período, então prefiro encerrar com o pensamento do excelente Luis Fernando Veríssimo: "Pensei vagamente em estudar arquitetura, como todo o mundo. Acabaria como todos que eu conheço que estudaram arquitetura, fazendo outra coisa. Poupei-me daquela outra coisa, mesmo que não tenha me formado em nada e acabado fazendo esta estranha outra coisa, que é dar palpites sobre todas as coisas."

sábado, 27 de novembro de 2010

Morte e vida de grandes cidades, de Jane Jacobs

Os usos das calçadas: integrando as crianças
Fonte: Google Imagens
Entre as superstições do planejamento urbano e do planejamento habitacional existe uma fantasia sobre a transformação das crianças, condenadas a brincar nas ruas, pagando o preço moral e físico de crianças na rua. Pudera essas crianças carentes ser retiradas das ruas e colocadas em playgrounds. Tsc tsc tsc... Vejamos agora a historia real: alguns conjuntos habitacionais, com seus generosos gramados e playgrounds, desinteressantes e freqüentemente desertos, guardam em seu interior um corredor polonês formado por valentões, que fazem as crianças esvaziar os bolsos e as espancam. Essas crianças voltam então para a rua tradicional, onde não correm o risco de extorsão. Elas têm uma quantidade enorme de ruas para escolher e, espertas, escolhem as mais seguras, sempre com um comerciante ou alguém a quem recorrer. Vejamos outra história real: as “gangues de rua” travam suas “brigas de rua” principalmente em parques e playgrounds. Além do mais, e cada vez com maior freqüência, as crianças que participam desses horrores são identificadas como moradoras dos conjuntos habitacionais das superquadras, onde se conseguiu tirar das ruas as brincadeiras cotidianas (as próprias ruas foram eliminadas na maioria). Esses conjuntos habitacionais mostram, entre outras coisas, a intenção de tirar as crianças das ruas. Na vida real, que mudança significativa ocorre de fato se as crianças são transferidas de uma rua cheia de vida para os parques ou para os playgrounds públicos ou de conjuntos habitacionais? Na maioria dos casos, (não em todos, felizmente), a mudança mais significativa é esta: as crianças saem de sob os olhos vigilantes de uma grande quantidade de adultos para um lugar onde a proporção de adultos é baixa ou inexistente. A vigilância dos adultos que se encontram e conversam na calçada é só aparentemente ocasional: os adultos nem sempre são os mesmos, porque outros já aparecem na janela e outros passam pra lá e pra cá, ou se detêm um pouco. Entre as superstições do planejamento urbano e do planejamento habitacional existe uma fantasia sobre a transformação das crianças, condenadas a brincar nas ruas, pagando o preço moral e físico de crianças na rua. Pudera essas crianças carentes ser retiradas das ruas e colocadas em playgrounds. Tsc tsc tsc... Vejamos agora a história real: alguns conjuntos habitacionais, com seus generosos gramados e playgrounds, desinteressantes e freqüentemente desertos, guardam em seu interior um corredor polonês formado por valentões, que fazem as crianças esvaziar os bolsos e as espancam. Essas crianças voltam então para a rua tradicional, onde não correm o risco de extorsão. Elas têm uma quantidade enorme de ruas para escolher e, espertas, escolhem as mais seguras, sempre com um comerciante ou alguém a quem recorrer. Vejamos outra história real: as “gangues de rua” travam suas “brigas de rua” principalmente em parques e playgrounds. Além do mais, e cada vez com maior freqüência, as crianças que participam desses horrores são identificadas como moradoras dos conjuntos habitacionais das superquadras, onde se conseguiu tirar das ruas as brincadeiras cotidianas (as próprias ruas foram eliminadas na maioria). Esses conjuntos habitacionais mostram, entre outras coisas, a intenção de tirar as crianças das ruas. Na vida real, que mudança significativa ocorre de fato se as crianças são transferidas de uma rua cheia de vida para os parques ou para os playgrounds públicos ou de conjuntos habitacionais? Na maioria dos casos, (não em todos, felizmente), a mudança mais significativa é esta: as crianças saem de sob os olhos vigilantes de uma grande quantidade de adultos para um lugar onde a proporção de adultos é baixa ou inexistente. A vigilância dos adultos que se encontram e conversam na calçada é só aparentemente ocasional: os adultos nem sempre são os mesmos, porque outros já aparecem na janela e outros passam pra lá e pra cá, ou se detêm um pouco. Esses conjuntos habitacionais mostram, entre outras coisas, a intenção de tirar as crianças das ruas. Na vida real, que mudança significativa ocorre de fato se as crianças são transferidas de uma rua cheia de vida para os parques ou para os playgrounds públicos de conjuntos habitacionais? Na maioria dos casos (não em todos, felizmente), a mudança mais significativa é que as crianças saem de sob os olhos vigilantes de uma grande quantidade de adultos para um lugar onde a proporção de adultos é baixa ou inexistente. A vigilância desses adultos que se encontram e conversam na calçada é só aparentemente ocasional, também pelo fato de os adultos nem sempre serem os mesmos. Sem dúvida, nem todas as calçadas têm essa espécie de vigilância, e esse é um dos problemas urbanos que o planejamento deveria ajudar a corrigir. Calçadas pouco usadas ou com uma vizinhança que troca de endereço constante e rapidamente não oferecem vigilância adequada para a educação de crianças. Mas os playgrounds e os parques próximos dessas ruas são ainda menos saudáveis. Os planejadores da Cidade-Jardim, em seu ódio pelas ruas, acharam que a solução seria construir pátios para as crianças no centro das superquadras, conduta herdada pelos projetistas da Cidade-Jardim Radieuse. Hoje, varias amplas áreas reformadas estão sendo replanejadas segundo o princípio dos parques encravados no meio dos quarteirões. O problema desse arranjo é que nenhuma criança com iniciativa e perspicácia vai permanecer voluntariamente num lugar tão entediante depois dos seis anos de idade. Alem do mais, pode-se verificar em plantas de construção que esse tipo de planejamento exige que os prédios estejam voltados para a parte de dentro do pátio. Não fosse assim, a graça do pátio não seria aproveitada e se perderia a facilidade de vigilância e acesso. Dessa forma, os fundos dos prédios, quase sem uso, voltam suas paredes cegas para as ruas. As calçadas movimentadas têm também aspectos positivos para a diversão das crianças, e esses aspectos são no mínimo tão importantes quanto a segurança e a proteção. As crianças precisam de bons locais onde possam brincar e aprender; precisam de oportunidades para praticar esportes; precisam de um local perto de casa, ao ar livre, sem um fim especifico, onde possam brincar, movimentar-se e adquirir noções do mundo. É essa recreação informal que as calçadas propiciam. As pessoas das cidades que têm outros trabalhos e afazeres têm condições ao menos de supervisionar a recreação das crianças e incorporá-las à sociedade, e o fazem enquanto se ocupam de suas outras atividades. Os urbanistas parecem não perceber quão grande é a quantidade de adultos necessária para cuidar de crianças brincando, pois espaço e equipamentos não cuidam delas, são só complementos úteis. Na prática, é só com os adultos das calçadas que as crianças aprendem o principio fundamental de uma vida urbana próspera: as pessoas devem assumir um pouquinho de responsabilidade pública pelas outras, mesmo que não tenham relações com elas. Trata-se de uma lição que ninguém aprende com por lhe ensinarem. Aprende-se a partir da experiência de outras pessoas sem laços de parentesco ou de amizade intima ou de responsabilidade formal para com você. As crianças conseguem assimilar essa lição surpreendentemente cedo e mostram que assimilaram ao reconhecer que também fazem parte desse processo. A existência ou a ausência desse tipo de comportamento nas crianças da cidade é uma indicação muito boa da existência ou da ausência do comportamento responsável de adultos em relação à calçada e às crianças que a utilizam. A diversão em calçadas movimentadas e diversificadas difere de praticamente todos os outros tipos de lazer de que as crianças dispõem: uma recreação que não se encontra sobre as rédeas do matriarcado. Planejadores e projetistas são, na sua maioria, homens. Estranhamente, eles criam projetos e planos que desconsideram os homens como integrantes da vida diária: fazem projetos estritamente para sociedades matriarcais, como os conjuntos habitacionais. Localizar o trabalho e o comercio próximos das residências, mas mantê-los afastados, de acordo com a tradição imposta pela teoria de Cidade-Jardim, é uma solução tão matriarcal quanto situar as residências a quilômetros de distancia do trabalho e dos homens. Os locais de trabalho e comercio devem mesclar-se às residências. A oportunidade (que na vida moderna tornou-se privilegio) de brincar e crescer num mundo cotidiano composto tanto de homens como mulheres é possível e comum para as crianças que brincam em calçadas diversificadas e cheias de vida. A fascinação das crianças pela vida nas ruas foi constatada há muito tempo por especialistas em recreação, geralmente com desaprovação. Os mesmos deploram a “tendência inflexível das crianças de vadiar nas ruas da cidade, cheias de vida e aventura, tão característicos de hoje como em 1928.”. A extraordinária comodidade das calçadas é um trunfo importante também para as crianças. Nesses momentos, as crianças dispõem e utilizam de todos os meios para exercitar-se e divertir-se. Á medida que as crianças crescem, essa atividade informal fora de casa passa a exigir menos do físico e acarreta um tempo mais prolongado com os outros. O requisito para qualquer uma dessas variedades de recreação informal não é a existência de nenhum tipo de equipamento rebuscado, mas sim de espaço num local conveniente e interessante. A brincadeira é prejudicada se as calçadas forem muito estreitas e se não tiverem pequenas irregularidades no alinhamento das construções. Quanto mais movimentadas e atraentes forem as calçadas e quanto maior o numero e a variedade de usuários, maior deverá ser a largura total para comportar seus usos satisfatoriamente. Contudo, mesmo com a falta de espaço adequado, a localização conveniente das ruas e o interesse despertado por elas são tão importantes para as crianças – e a boa vigilância tão importante para os pais – que elas de adaptam ao acanhado espaço da calçada. A idéia de se livrar das ruas, desde que isso seja possível, e depreciar e menosprezar sua função social e econômica na vida urbana é uma das mais nocivas e destrutivas do planejamento urbano ortodoxo. É o máximo da ironia que ela seja posta em prática com tanta freqüência em nome de fantasias nebulosas sobre a criação de crianças nas cidades.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Morte e vida de grandes cidades, de Jane Jacobs

O uso das calçadas: Contato
Fonte: Google Imagens
O ponto fundamental da vida social nas calçadas é precisamente o fato de serem públicos. Reúnem pessoas que não se conhecem socialmente de maneira intima, privada, e muitas vezes nem se interessam em se conhecer dessa maneira. As cidades estão cheias de pessoas com quem certo grau de contato é proveitoso e agradável, do seu, do meu ou do ponto de vista de qualquer individuo. Mas você não vai querer que elas fiquem no seu pé. Ao falar a respeito da segurança nas calçadas, existe a necessidade de haver, no cérebro por trás dos olhos atentos á rua, um pressuposto inconsciente do apoio geral da rua quando a situação é adversa - quando uma cidadão tem de escolher, por exemplo, se quer assumir a responsabilidade, ou abrir mão dela, de enfrentar a violência ou defender desconhecidos. Existe uma palavrinha para esse pressuposto de apoio: confiança. A confiança na rua forma-se com o tempo a partir de inúmeros pequenos contatos públicos nas calçadas. Grande parte desses contatos é absolutamente trivial, mas a soma de tudo não é. A soma desses contatos públicos casuais no âmbito local - a maioria dos quais é fortuita, diz respeito a solicitações, a totalidade dos quais é dosada pela pessoa envolvida e não imposta a ela por ninguém – resulta na compreensão da identidade pública das pessoa, uma rede de respeito e confiança mútuos e um apoio eventual na dificuldade pessoal ou da vizinhança. A inexistência dessa confiança é um desastre para a rua. Seu cultivo não pode ser institucionalizado. E, acima de tudo, ela implica não comprometimento pessoal. Ruas impessoais geram pessoas anônimas, fato diretamente relacionado à vida pública e informal das calçadas como convocações de encontros, disponibilidade de locais de encontro e existência de questões de interesse público óbvio. A privacidade na zona urbana é preciosa. É indispensável, mas na maioria dos lugares não se consegue obtê-la. Em comunidades pequenas, todo mundo sabe da vida de todo mundo. Na cidade grande, nem todos sabem, a não ser aqueles que você escolhe para revelar segredos. Essa é uma característica das cidades grandes mais intensamente apreciadas e zelosamente preservadas. A privacidade por meio de janelas é a coisa mais fácil de conseguir no mundo. No entanto, a privacidade de revelar assuntos particulares a pessoas escolhidas e a privacidade de ter razoável controle sobre quem pode usar do seu tempo e quando fazê-lo são coisas raras na maior parte do mundo e não têm relação alguma com a disposição das janelas. Uma boa vizinhança urbana consegue um equilíbrio e tanto entre a determinação das pessoas de ter um mínimo de privacidade e seu desejo concomitante de poder variar os graus de contato, prazer e auxilio mantidos com as pessoas que as rodeiam. Esse equilíbrio é em grande parte constituído de pequenos detalhes manejados com sensibilidade e aceitos e praticados de maneira tão informal que normalmente nem são percebidos. Trata-se desse limite bem traçado, imposto quase inconscientemente, entre o mundo público e o privado. Esse limite pode ser mantido, sem que ninguém estranhe, pela grande variedade de oportunidades para contato público nos negócios instalados ao longo das calçadas ou nas próprias calçadas. Com um relacionamento assim, é possível conhecer na vizinhança todo tipo de pessoa sem estabelecer laços indesejados ou obrigações dessa espécie que vem junto com os relacionamentos menos restritos. Com o passar do tempo, é possível até a convivência familiar entre elas. Compartilhar é um tempo legitimamente aversivo para um velho ideal da teoria do planejamento urbano. Esse ideal é o de que, se há algo a dividir entre as pessoas, deve-se dividir ainda mais. O compartilhar, aparentemente um recurso espiritual dos novos subúrbios, tem um efeito destrutivo para as cidades. A existência de partilhar mais afasta os moradores da cidade. Quando uma área da cidade carece de vida nas calçadas, os moradores desse lugar precisam ampliar sua vida privada se quiserem manter com seus vizinhos um contato equivalente. Devem decidir-se por alguma forma de compartilhar, pela qual se divida mais do que na vida nas calçadas, ou então decidir-se pela falta de contato. Quanto ao primeiro resultado, em que se partilha mais, as pessoas tornam-se excessivamente exigentes em relação a quem são seus vizinhos ou com quem elas se relacionam, primando por semelhanças básicas de padrão de vida, valores e formação. Aí não existe vida pública em nenhuma das acepções urbanas. Há graus variados de uma vida privada ampliada. O resultado mais comum nas cidades, onde as pessoas de vêem diante da opção de compartilhar muito ou nada, é o nada. Em lugares da cidade que careçam de uma vida pública natural e informal, é comum os moradores manterem em relação aos outros um isolamento extraordinário. O resultado disso é que se deixam de realizar as obrigações públicas comuns, nas quais as pessoas precisam ter um pouco de iniciativa pessoal, ou aquelas em que é preciso associar-se a um propósito comum. O fosso que essa situação abre atinge proporções incríveis. Para essas famílias, o significado de privacidade já foi bastante deturpado para algo como uma forma de autoproteção: um mecanismo grupal complexo de proteção e preservação da dignidade pessoal diante de tantas pressões externas de adaptação. No entanto, pode-se encontrar, ao lado do isolamento, um nível considerável de partilha nesses lugares. Ainda assim, o partilhar é o que dificulta esse tipo de associação. A tendência é limitar-se a grupos reduzidos, como se fosse um processo natural. Não existe uma vida pública normal. A análise da estrutura social de um distrito apagado e desvitalizado chegou à conclusão de que não havia estrutura social alguma. A estrutura social da vida nas calçadas depende em parte do que pode ser chamado de uma figura pública autonomeada. A figura pública é aquela que tem contato freqüente com um amplo circulo de pessoas e interesse em tornar-se uma figura pública. Sua principal qualificação é ser pública, conversar com várias pessoas diferentes. É assim que se transmitem as noticias que são de interesse das ruas. A maioria das personagens de rua são pessoas que cuidam de lojas ou bares. São figuras públicas fundamentais: todas as outras figuras públicas das ruas dependem delas. As figuras públicas não só espalham noticias e sabem as noticias como se relacionam e espalham as novidades, de fato. A vida na rua não nasce de um dom ou um talento desconhecido. Só surge quando existem as oportunidades concretas de que necessita. Coincidentemente, são as mesmas oportunidades, com a mesma abundancia e constância, necessárias para cultivar a segurança nas calçadas. Se elas não existirem, os contatos públicos nas ruas também não existirão. Os ricos têm muito mais maneiras de satisfazer necessidades do que os mais pobres, que dependem mais da vida nas ruas. Mesmo assim, muitos dos ricos ou quase ricos das cidades parecem apreciar a vida nas ruas tanto quanto qualquer outra pessoa. Eles fazem de tudo, até pagar alugueis fabulosos, para mudar-se para locais com uma vida de rua exuberante e variada. A eficiência das figuras públicas diminui drasticamente se a pressão sob elas for muito grande. Um desinteresse profundo é o clima que predomina nos lugares em que um centro comercial planejado ou um zoneamento repressivo inventam artificialmente monopólios comerciais nos bairros, embora tenha o sucesso financeiro previsto, socialmente ele não atende à cidade. O contato público e a segurança nas ruas, juntos têm relação direta com o mais grave problema social do nosso país: segregação e discriminação racial. Urbanizar ou reurbanizar metrópoles cujas ruas sejam inseguras e cuja população deva optar entre partilhar muito ou não partilhar nada pode tornar muito mais difícil para as cidades superar a discriminação, sejam quais forem as iniciativas empreendidas. Aparentemente despretensiosos, despropositados e aleatórios, os contatos nas ruas constituem a pequena mudança a partir da qual pode florescer a vida pública exuberante da cidade. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Morte e vida de grandes cidades, de Jane Jacobs

Os usos das calçadas: Segurança
Fonte: Google Imagens


As ruas das cidades servem a vários fins além de comportar veículos; e as calçadas - a parte das ruas que cabe aos pedestres - servem a muitos fins além de abrigar os pedestres. Esses usos estão relacionados à circulação. A calçada por si só significa alguma coisa junto com os edifícios e os outros usos limítrofes a ela ou a calçadas próximas. As ruas e suas calçadas, principais locais públicos de uma cidade, são seus órgãos mais vitais. Quando as pessoas dizem que uma cidade, ou parte dela, é perigosa ou selvagem, querem dizer basicamente é que não se sentem seguras nas calçadas. Contudo, as calçadas e aqueles que as usam não são beneficiários passivos da segurança ou vitimas indefesas do perigo. Manter a segurança urbana é uma função fundamental das ruas das cidades e suas calçadas. Essa função é completamente diferente de qualquer atribuição que se exija das calçadas e das ruas de cidades pequenas ou de subúrbios verdadeiros. As metrópoles são maiores e mais povoadas que as cidades pequenas e são cheias de desconhecidos. O principal atributo de um distrito urbano próspero é que as pessoas se sintam seguras e protegidas na rua em meio a tantos desconhecidos. Não é preciso haver muitos casos de violência numa rua ou num distrito para que as pessoas temam as ruas. E, quando temem as ruas, as pessoas as usam menos, o que as torna inda mais inseguras. A violência e a insegurança real não podem ser rotuladas como um problema característico dos cortiços ou das áreas mais antigas das cidades ou ainda de grupos minoritários, pobres, marginalizados... Há males sociais profundos e complexos por trás da delinqüência e da criminalidade, tanto nos subúrbios e nas cidades de pequeno porte quanto nas metrópoles. Se pretendermos preservar uma sociedade urbana capaz de diagnosticar problemas sociais profundos e mantê-los sob controle, o ponto de partida deve ser, em qualquer circunstância, encorajar as forças viáveis para a preservação da segurança e da civilização - nas cidades que temos. A primeira coisa que deve ficar clara é que a ordem pública – a paz nas calçadas e nas ruas – não é mantida basicamente pela policia, sem com isso negar sua necessidade. É mantida fundamentalmente pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados. A segunda coisa que se deve entender é que o problema da insegurança não pode ser solucionado por meio da dispersão das pessoas, trocando as características das cidades pelas características dos subúrbios. Estamos então diante de uma questão sumamente importante a respeito de qualquer rua: que oportunidades ela oferece para o crime? Seja como for, ruas de tipos diferentes encerram modalidades diferentes de violência e medo da violência. Certas vias públicas não dão oportunidade alguma à violência urbana. Outras são locais especialmente vulneráveis. Seus problemas provem do fato de ela não ter condições físicas de funcionar com a segurança e a conseqüente vitalidade de m distrito urbano. Existem diferenças drásticas na segurança da população até mesmo em áreas supostamente parecidas de lugares supostamente parecidos. E uma coisa que todos já sabem: uma rua movimentada consegue garantir a segurança; uma rua deserta, não. Uma rua com infra-estrutura para receber desconhecidos e ter a segurança como um trunfo devido à presença deles – como as ruas dos bairros prósperos- precisa ter três características principais: Primeira, deve ser nítida a separação entre o espaço publico e o espaço privado. O espaço público e o privado não podem misturar-se, como normalmente ocorre em subúrbios ou em conjuntos habitacionais. Segunda, devem existir olhos para a rua, os olhos daqueles que podemos chamar de proprietários naturais das ruas. Os edifícios de uma rua preparada para receber estranhos e garantir a segurança, tanto deles quanto dos moradores, devem estar voltados para a rua. Eles não podem estar com os fundos ou um lado morto para a rua e deixá-la cega. E terceira, a calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, tanto para aumentar na rua o numero de olhos atentos quanto para induzir um numero suficiente de pessoas de dentro dos edifícios da rua a observar as calçadas. Ninguém gosta de ficar na soleira de uma casa ou na janela olhando  uma rua vazia. Quase ninguém faz isso. Há muita gente que gosta de entreter-se, de quando em quando, olhando o movimento da rua. Em assentamentos urbanos de pequeno porte, o controle sobre o comportamento aceitável em  mais público, quando não sobre a criminalidade, parece funcionar com mais ou menos êxito por meio de um emaranhado de condutas, comentários, aprovação, desaprovação e sanções – todos aspectos importantes quando as pessoas se conhecem e as noticias correm de boca em boca. É inútil tentar esquivar-se da questão da insegurança urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como pátios internos ou áreas de recreação cercadas. As ruas devem não apenas resguardar a cidade de estranhos que depredam: devem também proteger os inúmeros desconhecidos pacíficos e bem intencionados que as utilizam, garantindo também a segurança deles. Além do mais, nenhuma pessoa normal pode passar a vida numa redoma, e aí se incluem as crianças. Todos precisam usar as ruas. Todavia, não é tão simples atingir essas metas, especialmente a última.  Não se podem forçar as pessoas a utilizar as ruas sem motivo. Entretanto, a segurança das ruas é mais eficaz, mais informal e envolve menos traços  de hostilidade e desconfiança exatamente quando as pessoas as utilizam e usufruem espontaneamente. O requisito básico da vigilância é um número substancial de estabelecimentos e outros locais públicos dispostos ao longo das calçadas do distrito; deve haver entre eles sobretudo estabelecimentos e espaços públicos que sejam utilizados de noite. Em primeiro lugar, dão ás pessoas – tanto moradores quanto estranhos – motivos concretos para utilizar as calçadas onde esses estabelecimentos existem. Em segundo lugar, fazem com que as pessoas percorram as calçadas, passando por locais que, em si, não têm interesse para uso público, mas se tornam freqüentados e cheios de gente por serem caminho para outro lugar. Em terceiro lugar, os próprios lojistas e outros pequenos comerciantes costumam incentivar a tranqüilidade e a ordem. Se estiverem em bom número, são ótimos vigilantes das ruas e guardiões das calçadas. Este último item, de que a presença de pessoas atrai outras pessoas, é uma coisa que os planejadores e projetistas tem dificuldade em compreender. Eles partem do principio de que os habitantes das cidades preferem contemplar o vazio, a ordem e o sossego palpáveis. O equivoco não poderia ser maior. O prazer das pessoas de ver o movimento e outras pessoas é evidente em todas as cidades. A mesma coisa acontece nas vias públicas de qualquer lugar. Uma rua viva sempre tem tanto usuários quanto meros espectadores, além de pessoas que tomam conta das ruas sem compromisso. Elas notam os desconhecidos. Elas observam tudo o que acontece. Se precisarem intervir, seja para orientar um estranho esperando no lugar errado, seja para chamar a policia, elas intervêm.  Sem dúvida, a intervenção sempre requer certa autoconfiança, por parte de quem age, sobre sua convicção como co-proprietário da rua e sobre o auxilio que terá em caso de necessidade. No entanto, ainda mais fundamental do que a intervenção e imprescindível a ela é a própria vigilância. Nem todo o mundo nas cidades ajuda a tomar conta das ruas, e muitos moradores ou trabalhadores não têm consciência do motivo pelo qual seu bairro é seguro. Em alguns bairros ricos, onde existe pouca vigilância do tipo faça-você-mesmo são contratados vigilantes de rua, que prestam quase o mesmo serviço na manutenção da civilidade nas ruas. As cidades não apenas têm espaço para essas diferenças e outras mais em relação a gostos, propósitos e ocupações; também precisam de pessoas com todas essas diferenças de gostos e propensões. A boa iluminação é importante, mas não se pode atribuir apenas à escuridão a enfermidade grave e funcional das áreas apagadas, a Grande Praga da Monotonia. Para explicar o efeito perturbador dos estranhos nas ruas de áreas urbanas apagadas, destacarei primeiro as peculiaridades de outra espécie típica de rua – os corredores dos conjuntos habitacionais em prédios de apartamentos, aqueles derivados da Ville Radieuse. Em certo sentido, os elevadores e os corredores desses conjuntos são ruas no chão, e do chão se façam parques desérticos. Essas áreas internas dos edifícios não só são ruas no sentido de que servem à circulação dos moradores. São ruas também no sentido de serem acessíveis ao público. Qualquer um pode entrar nesses edifícios sem se identificar e usar a rua móvel, que é o elevador, e as calçadas, que são os corredores. Essas ruas internas, embora inteiramente acessíveis ao uso público, são fechadas à vista das pessoas, carecendo, portanto, da vigilância e da inibição exercidas pelos olhos que policiam as ruas. Essas mesmas ruas que atraem estranhos não estão preparadas para lidar com estranhos, e a presença deles é uma ameaça automática. Um planejamento que ignore isso e desconsidere as profundas deficiências funcionais do local só pode provocar uma de duas conseqüências. Primeira, as pessoas de fora continuarão a freqüentar o local quando quiserem e, sendo assim, haverá entre elas estranhos que não são nem um pouco bem-comportados. Quanto à segurança, nada terá mudado, a não ser que talvez haja mais oportunidades para cometer delitos nas ruas, em virtude da ampliação dos vazios. Ou, segunda conseqüência, o plano pode conter medidas rígidas e insólitas para manter as pessoas de fora afastadas do local, como soltar cães policiais todas as noites para patrulhar e intimidar qualquer ser humano. O diagnostico e as medidas corretivas do plano são típicas – apenas ligeiramente mais ambiciosas – de planos concebidos como experimentos de revitalização de áreas apagadas em cidades de todo o país. Suponhamos que continuemos a construir cidades inseguras e a reurbanizá-las deliberadamente. Como conviveremos com essa insegurança? Pelas evidencias que temos até hoje, parece haver três maneiras de conviver com ela. A primeira maneira é deixar o perigo reinar absoluto e deixar que os infelizes que defrontarem com ele sofram as conseqüências. Essa é a política adotada atualmente com relação aos conjuntos habitacionais de baixa renda e vários outros, de renda média. A segunda maneira é refugiar-se em veículos. Esse recurso é utilizado nas grandes reservas de animais selvagens da África, nas quais os turistas são advertidos a não sair do carro em hipótese alguma até que cheguem ao alojamento. Essa prática também é empregada em Los Angeles. A terceira maneira foi criada por bandos de arruaceiros e abertamente adotada pelos criadores da cidade reurbanizada. Essa modalidade consiste em cultivar a instituição do Território. Segundo a modalidade tradicional do sistema do Território, uma gangue apropria-se de certas ruas e conjuntos habitacionais ou parques – geralmente uma combinação dos três. Os integrantes de outras gangues não podem entrar nesse Território sem a permissão de seus proprietários e se o fizerem correm o risco de ser espancados ou enxotados, embora ocorram tréguas entre os grupos rivais. Para a polícia, que procura garantir o direito de qualquer pessoa de transitar em segurança em qualquer local da cidade, tendo por direito fundamental a imunidade, os pactos sobre os territórios subvertem intoleravelmente os direitos do cidadão e a segurança pública. Nos projetos de reurbanização das cidades também é prática a demarcação de territórios: as cercas se tornam concretas. Na cidade reurbanizada é necessário haver uma serie de cercas para instalar uma vizinhança equilibrada. A “junção” de duas populações com etiquetas de preço diferentes é particularmente notável e o preconceito e a discriminação são visíveis. A prática de dividir a cidade em Territórios não é uma solução nova-iorquina apenas. É uma solução da cidade norte-americana reurbanizada. Onde quer que surja uma cidade reurbanizada, o conceito do Território vem junto, porque a cidade reurbanizada despreza a função fundamental da rua e, com ela, necessariamente, a liberdade da cidade. Sob a aparente desordem da cidade tradicional, existe, nos lugares em que ela funciona a contento, uma ordem surpreendente que garante a manutenção da segurança e a liberdade. É uma ordem complexa. Sua essência é a complexidade do uso das calçadas, que traz consigo uma sucessão permanente de olhos. Essa ordem compõe-se de movimento e mudança, e embora, se trate de vida, não de arte, podemos chamá-la, na fantasia, de forma artística da cidade e compará-la a dança. Um balé complexo, em que cada individuo e os grupos têm todos papeis distintos, que por milagre, se reforçam mutuamente e compõem um todo ordenado. O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações. A descrição dos balés diários são mais frenéticas do que são, porque as cenas são mais compactadas. Na vida real não é assim. Na vida real, com certeza, há sempre alguma coisa acontecendo, o balé não tem intervalo, mas a sensação geral é serena, e a cadencia geral, bem mais pausada. Não existe porém simplicidade alguma na ordem em si ou no atordoante número de elementos que a compõem. A maior parte desses componentes são, de certa maneira, específicos. Eles provocam um efeito conjugado sobre a calçada, contudo, que não é de modo algum especifico. Aí reside sua força.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Orquestra Filarmônica de Minas Gerais

Fonte: http://www.filarmonica.art.br/
E juro que eu chorei. E o Flávio riu de mim.... Mas é porque eu achei tudo tãããao lindo!!! De contos de fada ao namorado lindo que estava do meu lado, das brincadeiras da minha infância às dores de amor juvenis, da chuva de ontem às incertezas do futuro: não posso precisar quantas sinapses meus neurônios estabeleceram nos segundos em tudo isso se passou. E não respirava, não piscava e via tudo embaçado. Nossa, foi inexplicável.

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais se apresentou no Palácio das Artes, terça-feira, 23/11, às 20h30, regidos pelo maestro Fabio Mechetti. A Orquestra é formada por 85 músicos, sendo 60 brasileiros e 25 estrangeiros. O maestro é também diretor artístico do grupo e ganhou no ano passado o prêmio Carlos Gomes de melhor regente brasileiro. Ele também rege a Orquestra Sinfônica de Jacksonville, na Flórida. Marcelo Lehninger é o regente assistente.

A Orquestra é mantida pelo Instituto Cultural Filarmônica, organização civil ligada ao Estado de Minas Gerais. A Filarmônica foi formada a partir de 2007, originalmente com o nome de Orquestra Sinfônica do Estado de Minas Gerais, com músicos selecionados em audições em BH, RJ, SP, EUA, Polônia e Sérvia, somando-se ainda 35 músicos egressos da OSMG. A estréia do grupo aconteceu em 2008, no Grande Teatro do Palácio das Artes, com a apresentação da Nona Sinfonia de Beethoven. Ainda em 2008, passou a se chamar Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Não existe diferença entre “filarmônica” e “sinfônica”: esses prefixos serviram, durante muitos anos, para designar a natureza da orquestra, se “pública” (filarmônica) ou “privada” (sinfônica). Hoje não se pode mais fazer essa distinção, seja no Brasil ou em outros países, já que ambas dependem do auxilio tanto da iniciativa privada como dos governos.

Na entrada eles entregaram o programa e o calendário dos 21 concertos da temporada 2011. Também tinha um folheto explicando sobre como se tornar um assinante da filarmônica, um esquema pra adquirir os ingressos antes do inicio da temporada e tal... Eu achei um luxo!!! Ser assinante prestíssimo, que assiste aos 21 concertos, é a cara da riqueza. E também tinha uma pesquisa, para podermos avaliar as apresentações, o que é super digno, para que eles possam melhorar e corrigir as deficiências sempre.

Os concertos são divididos em duas séries: Allegro e Vivace. A única diferença entre elas é o dia da semana (quinta e terça, respectivamente) e o número de concertos (11 e 10, respectivamente).  No ultimo concerto da serie Vivace 2010, nós assistimos um dos grandes violoncelistas da atualidade, o alemão Alban Gerhardt, finalizando a homenagem da Orquestra aos 100 anos de Samuel Barber com seu “Concerto para Violoncelo”. A Filarmônica apresenta ainda a ultima obra composta para orquestra pelo russo Rachmaninoff. O programa foi:

Hector Berlioz: O Corsário: Abertura, op. 21 (1855)
Samuel Barber: Concerto para violoncelo e orquestra, op. 22 (1945)
Sergei Rachmaninoff: Danças Sinfônicas (1940)

Uma das coisas que eu gostei muito foi o amor dos músicos para com seus instrumentos... Eu sempre amei música clássica, apesar de nunca ter ido a nenhum concerto, e sempre tive vontade de aprender violino, sax, piano, transversa... Harpa também deve ser o máximo... Na apresentação os músicos viveram a história que estavam contando, com tanto arrebatamento, com tanto amor que não tinha como não se emocionar. Separei um trechinho do site da Filarmônica que fala sobre os instrumentos, espero que gostem tanto quanto eu.

Mundo Filarmônica - Instrumentos

Posicionada à frente da orquestra, a família das cordas constitui, geralmente, o maior número de integrantes. Os instrumentos são tocados ao friccionar um arco às cordas dispostas nos instrumentos. Utiliza-se, também, uma técnica em que se utilizam os dedos para vibrar as cordas, chamada Pizzicatto. Na foto, do mais grave ao mais agudo, da esquerda para a direita: contrabaixo; violoncelo; viola; violino
Harpa e Teclados 
Há instrumentos que não se encaixam em nenhuma das famílias, embora estejam presentes na maioria dos grupos sinfônicos. É o caso da harpa, que apesar de ser um instrumento de cordas, se toca de forma dedilhada, a desclassificando como da família de cordas. Outros instrumentos que não se inserem nas famílias são o piano e a celesta.
Madeiras 
Posicionada logo atrás das cordas, a família das madeiras é composta por instrumentos de sopros que, originalmente, eram feitos em madeira. Com a evolução desses instrumentos, a semelhança com o timbre original foi o que manteve o nome "Madeiras". Na foto, da esquerda para a direita: flautim, flauta, oboé, clarinete, corne inglês, clarone, fagote e contra fagote.
Metais 
A família dos metais é composta por instrumentos de sopro que variam o som produzido de acordo com o comprimento dos tubos pelos quais o ar percorre. Originalmente feitos em latão ou bronze, esses instrumentos são compostos, genericamente, por um bocal, tubos de metal e a campânula, por onde sai o som. Na foto, da esquerda para a direita: tuba, trombone, trompete e trompa.
Percussão 
Instrumentos de percussão são utilizados, em geral, para marcar o ritmo das obras. O som desses instrumentos não se baseia nas notas musicais, mas na presença e no tempo que duram. Normalmente são batidas, rangidos, agitações, que destacam a pulsação da música e, em alguns casos, criam efeitos musicais específicos para a peça.

Subjetividades domésticas e Os novos nômades

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/
Guilherme Wisnik, arquiteto, escreve muito bem!!! Abaixo, dois artigos publicados na Folha de S. Paulo no Caderno Ilustrada, p. E2, em 27/08 e 03/09/2007, com os títulos de “Subjetividades domésticas” e “Os novos nômades”. Ele é arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e mestre em História pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas na mesma universidade. Publicou diversos textos sobre arquitetura e colaborou no livro Paulo Mendes da Rocha. Assina coluna semanal sobre arquitetura no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo.
Fonte: Google Imagens
"1. Qual foi o legado do século XX para a nossa cultura doméstica? Tal é o mote seguido pelo arquiteto espanhol Iñaki Ábalos em “A boa-vida: visita guiada às casas da modernidade” (Gustavo Gili, 208 págs., R$ 75,25). Sem pretensões conclusivas, o livro faz um inquietante inventário de diversas casas “inventadas” pela modernidade: a existencialista, a pragmática, a positivista, a fenomenológica, a comunal e, inclusive, a sua desconstrução pós-estruturalista. Privilegiando a dimensão do imaginário contida em cada um desses distintos modos de habitar, o autor vai revelando os diferentes sujeitos sociais supostos em tais modelos. O seu alvo de ataque é a pretensão universalista que ficou colada à imagem da casa moderna, que o autor chama de “casa positivista”, situando-a como apenas um modelo entre outros. O único, aliás, que em sua opinião se encontra hoje definitivamente esgotado.

Contra a obsessão higiênica, anônima, ideal e estatística do positivismo (a célula-mínima, a família-tipo), Ábalos afirma o papel decisivo da subjetividade para os outros braços da modernidade. Nessa trilha, somos guiados não apenas através de casas projetadas por arquitetos, mas também pela intensidade sensorial das casas-ateliê de Picasso (táteis ao invés de técnicas) e do sobrado-bricolagem de monsieur Hulot, de Jacques Tati (“Mon oncle”, 1957). Assim como pela anarquia extrovertida das comunas pop nova-iorquinas dos anos 60 (como a Factory de Andy Warhol), que converteram a moradia em trabalho ao mesmo tempo em que faziam da arte um viver. Ou, ainda, pela casa pré-fabricada de Buster Keaton (“One week”, 1920), e sua incapacidade de montá-la como espelho da impossibilidade de se recompor um horizonte doméstico e familiar “normal”. Nada, portanto, de homens universais, mas de indivíduos bem particulares: o eterno menino em férias (Picasso e Hulot), o membro de uma tribo que vive na cidade e a consome (Warhol), e o cidadão que internalizou as divisões sociais a ponto de se tornar um autômato (Keaton).
Também na esfera da arquitetura, o autor resgata o papel crucial da dimensão subjetiva para muitos projetos. É o caso das casas-pátio de Mies van der Rohe, dos anos 30, e das casas californianas dos anos 50 (“pragmáticas”), como as Case Study Houses. Que sujeito essas residências ao mesmo tempo supõem e projetam? No segundo caso: a mulher independente, liberal e ativa, que se libertou das tarefas domésticas para gozar o conforto, a eficiência e a flexibilidade da sociedade de consumo. E, no primeiro, o homem urbano sem família nem metafísica. O solitário que afirma a sua existência como potência da vontade, assim como o “super-homem” nietzschiano. Daí a horizontalidade extensa e sem barreiras desses espaços domésticos, como que feitos de uma matéria anti-gravitacional: templos de um sujeito irredutível e sem transcendência, isto é, moderno. Na agilidade de suas páginas, o livro nos convida a visitar um século não inteiramente real, mas latente. Em que a idéia de “morte do sujeito” contracena com uma subjetividade soberana e afirmativa.
Fonte: http://www.webluxo.com.br/
2. Moradores de cidades como Veneza, Florença ou Barcelona acostumam-se cada vez mais a ter o seu espaço cotidiano tomado por multidões de turistas que, no entanto, alimentam a sua economia. Ao mesmo tempo, moradores de bairros antes pacatos e residenciais como a Vila Olímpia, em São Paulo, convivem com a proliferação de torres de escritório ocupadas por empresas transnacionais voláteis, que as alugam de anônimos fundos de pensão. Torres que são, supostamente, a base hospedeira para capitais que, conquanto não “fugissem”, deveriam manter a economia da cidade girando. Fica claro que, em todos esses casos, a noção de pertencimento dos habitantes à “sua” cidade ou bairro está, no mínimo, em crise. E que, para muitas cidades, as alternativas de “sobrevivência” são, simultaneamente, predatórias.

Quem é o novo sujeito emergente na cidade contemporânea? A pergunta ressoa no livro de Ábalos, particularmente no capítulo que trata do pós-humanismo desconstrutivista. É significativo que, tendo como tema a casa, o autor não possa abordar o momento atual sem tratar fundamentalmente da cidade, na qual desponta a figura do “nômade”. Pois o crescente aumento da mobilidade, em oposição às instâncias estáticas e tradicionais da família e do lugar de origem, nos conduzem a uma instalação no mundo cada vez mais fugaz e individualizada, paralela à própria mobilidade do capital no território. Ábalos, nesse ponto, toma como mote as provocações do arquiteto japonês Toyo Ito, nos projetos que fez para a “mulher nômade de Tóquio” (Pão I-II, 1985-1989): frágeis cabanas móveis contendo apenas um toucador, uma mesa de telecomunicação e uma cadeira de repouso. Jovem e independente, a “mulher nômade” é ociosa e consumista. Por isso sua casa é apenas um pequeno conjunto de artefatos, leve e sem privacidade. Não um refúgio da cidade, mas um posto de observação.
Ela, desse modo, não se insere na cidade do trabalho, do transporte, da família ou do lazer. Como um inseto, apenas pousa com sua cabana parasita em lugares privilegiados. Pois, embora não produza, o seu consumismo é funcional ao sistema: eis o atual paradoxo da especulação financeira, isto é, da geração espontânea de riqueza no capitalismo tardio (em que, no fundo, a estabilidade global depende da desarticulação e flexibilização das estruturas locais). Essa cidade (“global”, “genérica”) é, portanto, protagonizada pelos “novos nômades”: aqueles que estão nela sem estar, ou não estão estando. Sejam hordas de turistas, ações correndo no pregão da bolsa de valores, corporações rentistas ou navegantes da internet. “Tarzãs numa floresta midiática”, segundo Toyo Ito.
É curioso como a imagem da “mulher nômade” se distingue da figura histórica do burguês, cuja agorafobia (aversão ao espaço público) alimentou uma fetichização da intimidade como refúgio compensatório da cidade. Ela aponta para uma outra “elite”, que não mais aquela encastelada em palacetes, e que despreza solenemente o trinômio Trabalho, Família e Propriedade."

Os textos de Guilherme Wisnik sintetizam grande parte do conhecimento adquirido nesse semestre. O mais legal é que quando eu li seus textos eu entendi tudo: sabia do que ele estava falando. O panorama geral feito por ele no primeiro texto abarca toda a nossa discussão sobre o positivismo, nesse 1º período da UFMG. O positivismo, como filosofia, formaliza a questão do "ideal": cidades ideais para famílias ideias com pessoas ideais. Na sociedade positivista tudo tinha que ser perfeito. E é essa objetividade, na minha opinião, que foi o empurrãozinho para o declínio e exaustão dessa ideologia. Os dois textos do autor se relacionam nessa medida. Quem é o sujeito emergente do mundo positivista? "Que sujeito essas residências ao mesmo tempo supõem e projetam?" Modos de habitar distintos geram diferentes sujeitos sociais. Entretanto, ociosos e consumistas, separados no tempo, as semelhanças entre a Villa Arpel e "a casa da mulher nômade" são notórias. A descrição da casa da mulher nômade aplica-se perfeitamente à Villa Arpel: um “conjunto de artefatos, leve e sem privacidade. Não um refúgio da cidade, mas um posto de observação. (...) não se insere na cidade do trabalho, do transporte, da família ou do lazer.” Ambas anônimas, sensorialmente desprovidas de intensidade, ordenadas e universais, conduzindo "a uma instalação no mundo cada vez mais fugaz e individualizada. (...):  templos de um sujeito irredutível e sem transcendência, isto é, moderno.".